Todos têm o direito de tentar se expressar em qualquer idioma, bem como em inglês”

Na última quarta-feira, dia 23, o produtor americano Jack Endino publicou em sua página de Facebook a seguinte frase:

“Bandas brasileiras, por que vocês cantam em inglês? Não consigo entender uma palavra.”

O post do produtor desencadeou inúmeras respostas de brasileiros revoltados com a declaração. O jornalista Lucas Nobile, da Folha de São Paulo, publicou um artigo no dia 26 compilando uma série de respostas de artistas brasileiros. Andre Matos foi um dos convidados a escrever uma réplica. Sua resposta, no entanto, foi editada para se adequar ao tamanho do artigo.

Leia aqui a resposta de Andre Matos na íntegra:

“Acho que, de fato, o produtor mostra uma certa ignorância em relação à cena do rock mundial, não apenas brasileira. Para ficar só em alguns exemplos, se a dica fosse seguida a risco, bandas como Scorpions, Europe, Helloween, Nightwish e outras nunca teriam feito sucesso fora de seus países de origem, que não têm o inglês como idioma oficial. E, ao sairmos do âmbito do rock pesado, o que dizer de fenômenos pop tipo Abba, A-ha, Roxette, Shakira, Celine Dion?

Tom Jobim, por exemplo, verteu todo o seu repertório visando exatamente o mercado internacional. Será que foi criticado também, por esse mesmo motivo?

Todos têm o direito de tentar se expressar em qualquer idioma, bem como em inglês – que é considerado o “esperanto” dos tempos modernos – ao visar uma carreira internacional. (Talvez daqui a algumas décadas seja necessário cantar em chinês. A questão econômica mundial também tem um papel decisivo.)

Na minha própria carreira musical, desde o início, a proposta foi tentar cantar em inglês. Saíamos do período da ditadura no Brasil e aprendíamos na marra, ouvindo música e estudando muitas vezes por conta própria. Por isso concordo com o produtor, em parte, quando diz que não entende muito do que se fala nas letras. Discordo em relação a todo o resto.

Certamente houve alguns tropeços linguísticos no início de minha carreira, mas não foram estes que impediram o sucesso internacional de minhas bandas ao longo dos anos. A prova é que até hoje nunca cantei em outro idioma que não o inglês.

Por isso, rebato a afirmação: pode-se, sim fazer sucesso tanto no exterior, quanto em seu próprio país. E, neste último caso, isto também é uma forma de difusão de cultura: quantos fãs já não nos agradeceram por ter-lhes acendido uma centelha no tocante ao idioma? “Graças a vocês, apendi a falar inglês, através de suas músicas”.

E, para arrematar a discussão, tudo passa também por uma questão de estilo. Essa é uma discussão antiga. O rock nasceu nos EUA e foi aperfeiçoado ao extremo na Inglaterra. De fato, soa muito bem em inglês, que é uma língua mais prática que o português, para tal finalidade.

O que não quer dizer que não haja ótimas composições em nosso próprio idioma. Mas que, infelizmente, têm de se debater com o fato de não poder ser exportadas além dos poucos territórios lusofônicos. Neste aspecto, até mesmo o espanhol leva considerável vantagem numérica.

Portanto, estilisticamente, é aceitável o uso do inglês no rock, independente da nacionalidade do artista em questão.
Assim como era de praxe o uso do italiano e do alemão nas óperas até meados do século XX. (“O Guarani”. de Carlos Gomes, um de nossos maiores compositores, estreou na Europa sob o título “Il Guarany”; e apesar da temática regional baseada na obra de José de Alencar, tanto o idioma do libreto quanto o das árias não era o português!)

Defendo que devamos nos esforçar para elaborar uma obra que prime pela perfeição linguística: no meu ponto de vista, tão importante quanto o próprio acabamento musical. Mas não precisamos ignorar nossas raízes e características em função disso. Uma coisa é tornar-se inteligível; outra é soar demasiadamente forçado. Em resumo, ninguém precisa cantar com sotaque do Texas ou de Oxford para se fazer entender. Porque às vezes, nem eles mesmos se entendem entre si.

E, como última observação: nosso dileto produtor propõe sua indagação do topo de uma posição um tanto confortável. Gostaria de saber como ele se sairia, se acaso o idioma em questão fosse o português do Brasil. Será que conseguiria alcançar resultados tão ou mais satisfatórios do que os que somos capazes, ao compor e cantar em outro idioma? Fica aqui a pergunta.

Andre Matos”

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